A graça não prende: por que o consentimento deve estar presente na adoração.

Pontos - chaves:

  • Muitas congregações confundem afecto com santidade. Tratamos a proximidade física como prova de saúde espiritual, escreve o Dr. Brett McKinley Pardue.
  • A artista-teóloga residente na Igreja Metodista Unida de North Raleigh afirma que a igreja não precisa conhecer todas as histórias para practicar o consentimento. "Precisamos admitir que o cuidado faz parte da santidade."
  • Uma igreja que pergunta primeiro não é menos afectuosa. É mais confiável. E numa época em que a confiança foi abalada em tantos santuários, essa talvez seja uma das formas mais radicais de evangelização que ainda existem.

Dr. Brett McKinley Pardue. Foto cedida pelo autor.

Dr. Brett McKinley Pardue.
Foto cedida pelo autor.

Numa igreja onde trabalhei, uma santa bem-intencionada ficava de pé no corredor todos os domingos com os braços abertos. Ela não estava tentando prender ninguém. Ela estava tentando amar as pessoas. Mas a postura causava um efeito diferente no ambiente. Antes do primeiro hino, os visitantes tinham que escolher: abraçar um estranho ou correr o risco de parecer frio num lugar que se orgulha de sua hospitalidade.

A maioria de nós conhece a regra não escrita. Recusar o toque pode parecer recusar a comunhão. Recusar um abraço pode ser interpretado como recusar a própria comunidade. Fazemos isso com as crianças também: "Vá dar um abraço na tia Linda." "Aperte a mão do Pastor." Ensinamos que a igreja é um lugar onde dizer "não" é constrangedor.

Para algumas pessoas, o toque não é neutro. O toque é memória. O toque é poder. E a igreja não merece o benefício da dúvida. Vivemos num meio aos destroços do abuso espiritual e da interferência pastoral excessiva que deixam as pessoas assombradas pelo que foi feito “em nome de Jesus”. Se um santuário não consegue respeitar limites, não pode pregar a libertação de forma credível.

Não se trata de evitar o toque. Trata-se de recusar a ideia de ter direitos — recusar qualquer versão de “amor” que exija acesso ao corpo de outra pessoa.

Comentários

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Às vezes, defendemos nossos hábitos como “Bíblicos”. Dizemos que Jesus tocava as pessoas. Os Cristãos são um povo que gosta de abraçar. Mas, quando prestamos atenção aos Evangelhos, o toque de Jesus nunca é uma posse. Nunca é uma apropriação. É uma dádiva.

Repare que Jesus pergunta primeiro.

Ao cego: “O que queres que eu te faça?” ( Marcos 10:51). Ao homem junto ao tanque: “Queres ser curado?” ( João 5:6 ).

Essas são perguntas surpreendentes. Se a cura fosse uma demonstração de poder divino, Jesus poderia ter dispensado o consentimento. Em vez disso, ele honra o livre-arbítrio. Ele se recusa a tratar um corpo que sofre como propriedade pública, mesmo quando tem o poder de ajudar.

E quando Tomé exige provas, o Cristo ressuscitado não força a crença por meio da intimidação. Ele oferece acesso: “Ponha o seu dedo aqui. Não duvide, mas creia” ( João 20:27 ). O Cristo ressuscitado concede acesso como um dom, não como um direito adquirido.

Essa é uma ética pascal para a igreja.

Muitas das nossas congregações confundem afecto com santidade. Tratamos a proximidade física como prova de saúde espiritual. Agimos como se os corpos devessem estar imediatamente disponíveis — abertos, alegres, “bem”. Mas o Evangelho exige amor. E o amor não insiste em seguir seu próprio caminho.

Uma igreja moldada pelo consenso não seria mais fria. Seria mais verdadeira.

Isso significaria que deixaríamos de tornar o toque como o preço de entrada.

O gesto da paz não se tornaria um momento de pressão social. As pessoas poderiam oferecê-lo com um aceno de cabeça, a mão sobre o coração, uma reverência, um sussurro de "Paz para ti". Poderíamos dizer de frente: "Compartilhe a paz da maneira que lhe parecer mais confortável. Se quiser um abraço ou um aperto de mão, peça primeiro." Se a resposta for "não", que o "não" seja respeitado — e não punido com constrangimento.

Isso significaria que pararíamos de ensinar as crianças a ignorar seu próprio "não" em prol dos sentimentos dos adultos. Se uma criança não quer abraçar, isso não é um problema de discipulado. É um limite que vale a pena respeitar.

Isso significaria que Pastores e equipes de oração perguntariam antes de tocar em alguém: “Posso colocar a mão no seu ombro?” “Tú preferes que eu ore sem te tocar?” Essas não são perguntas impessoais. São perguntas delicadas. Elas dizem à pessoa: tú não és um objecto do ministério; tú és um próximo.

Isso significaria que pararíamos de nos surpreender com o facto de as pessoas chegarem com histórias que não podemos ver — agressão, abuso, trauma médico, sobrecarga sensorial, luto que deixa a pele exposta. A igreja não precisa conhecer todas as histórias para practicar o consentimento. Precisamos admitir que o cuidado faz parte da santidade.

Alguns se preocuparão com a importação da “linguagem do mundo” para o culto. Eu argumentaria o contrário. Consentimento é uma das palavras mais claras que temos para o amor que rejeita a dominação. Quando praticamos o consentimento, testemunhamos um Deus que não coage. Um Deus que bate à porta. Um Cristo que oferece suas feridas em vez de forçar a entrada.

E se “A paz esteja convosco” se tornasse um momento em que a igreja finalmente levasse isso a sério?

Não uma paz que exige uma demonstração de amizade. Não uma paz que trata os corpos como meros objectos. Mas uma paz que abre espaço para toda a verdade: algumas pessoas vêm para o culto cautelosas, exaustas, sedentas de Deus.

Uma igreja que pergunta primeiro não é menos afectuosa. É mais confiável. E numa época em que a confiança foi abalada em tantos santuários, essa talvez seja uma das formas mais radicais de evangelização que ainda existem.

Que a paz de Cristo esteja contigo — sem pressão. Que o amor se manifeste como consentimento. Que o Evangelho seja sentido, no corpo, como boas novas.

Pardue é artista-teólogo residente e organista principal na Igreja Metodista Unida de North Raleigh, na Carolina do Norte.

Contacto para a imprensa: Julie Dwyer, editora de notícias, newdesk@umnews.org . Para ler mais notícias da Igreja Metodista Unida, assine gratis o Boletim Informativo da Igreja Metodista Unida.

Traduzido por Ezequiel Marcos Nhantumbo

 


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